Categoria: Poesia
-

Volto de ti
Volto de tilúcido e refeito. Eu não sabia que as tuas ervaseram feitas de música. No vento, nos passosquem acertou uma vez? Volto neste ramo Inédito (25 Jan. 1972)
-

Homem-farrapo
Homem-farrapo, sejas tu quem fores,Até na sepultura, estou contigo.Abjuro o meu egoísmo e hoje, ofereço-teA inviolada ternura desta página,Magra flor, mas consciente, do meu cérebro.Homem-farrapo, olhado e abandonadoComo um farrapo sórdido. AparecesNa chuva ininterrupta das notícias,Criado e recriado, a toda a hora.Farrapo, sim: o que é um homemNa cela dum aljube ou dum asilo?Mas eu…
-

Donde vens a estas horas de pálpebras
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Donde vens a estas horas de pálpebras no luar álgido como se não viesses O vento me traz e me concebeu no teu silêncio onde o rosmaninho cresce com o corpo Mãos alvas no interior da noite esquecidas de tudo o que era dantes só projectadas As minhas mãos vêm dos mares próximos do teu…
-

Douro novo
À memória de António Cabral, grande poeta duriense I A luz doutras miragens acorda em teus espelhos translúcidas memórias, nostálgicas vertigens, paisagens escondidas em mágicas cortinas, colinas que deslizam em escadas líquidas, magia desdobrada, a descoberta que, a par de um Douro-terra, navega um douro-prata! II Magia tão secreta onde há perdidos sonhos, naufrágios, cachoeiras,…
-

Pequenos agricultores
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”7105″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text] 1. Elegia Estarei prestes a ser um objecto posto de lado? Quando muito, limpo de ferrugem e arrumado num cesto de recordações. Talvez um ramo a estalar, não ao peso das aves, dos frutos e da manhã. Dos filhos que emigraram e escrevem de longe, de aventura em aventura. Também…
-

Já os galos pretos cantam, já os anjos se alevantam
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Os anjos pousam no recife. O recife pousa onde ninguém o vê. O que se vê são dois pontos que ao tocarem-se produzem um excesso brevíssimo de luz, desde a curva inicial, e de que tu neste exacto momento és um murmúrio quase inaudível. Desejarias Sê-lo em cada espaço-instante desta imensa solidão? O ferro percute…
-

Aqui, o homem
Nem Baco nem meio Baco!: Aqui é o homem, desde as mãos ossudas e calosas, desde o suor ao sonho que transpõe as nebulosas. Montes de pedra dura, gólgotas onde os geios são escadas! Venham ver como sobe o desespero e a esperança, de mãos dadas. É o homem. Isso é o homem. – Nem…
-

Ainda hoje se fala nesse dia
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”79475″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text]Ainda hoje se fala nesse dia. Que surgiu como bola de fogo na sulfurosa montanha. Dies irae, dies illa. Distante, mas não tanto que se tenha apagado da raiva. Sobretudo os mais novos são os primeiros a recordar. Um hálito forte de Primavera excitava o húmido corpo da noite e alguns…
-

Oito dias de nevoeiro
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”6982″ img_size=”full” alignment=”center”][vc_column_text]Continuamos sob o nevoeiro mas sabemos que o sol anda na serra e encosta a face morna à virgindade das coisas, tocando-a com um hálito muito doce. Aqui estamos sob um tecto mole, chumbo respirado ou a carne dum monstro espacial. Os lavradores assobiam para dentro e os mais necessitados engolem os…
-

Hiroxima (a ciência de matar)
Há muitas maneiras de matar: com estilhaços ou palavras, com uma fina lâmina, com um riso régio com o ar que se dá a respirar. Não sei qual era o processo mais eficiente dos Faraós. Entre os romanos a ciência estava desenvolvida: da volúpia de Nero saltavam as bestas feras ou a chama azul dos…