Categoria: Poesia
-

Descendo a quinta do Roncão
Ao longo do caminho, há pampilros e um sol quente derrama-se na vinha. É domingo e é Abril. Desço a vertente tão simplesmente como um fio de água.
-

Faremos do envelhecer uma arte?
O tempo devolve, quase intacto,o olhar suficiente. E as águasvão ficando para trás, mansas,algumas à nossa frente,no hábito de as reflectir.Há um sabor, um odor subtilde madeiras, quando esculpimosas mãos.
-

Na repartição
Que tempo se passana repartição,esperando a vezque virá ou não! O Zé de Soutelotem olhar de boi.Que espera de pedraum homem remói! Senhor empregadoda repartição,fale em futebolnoutra ocasião. O Zé tem um arde coelho bravoe o silêncio negrodum antigo escravo. Senhor empregado,não berre coa gentee atenda primeiroos que estão à frente. O pobre do Zéjá…
-

Sete notas para uma sinfonia
1. Só saberás a música do vinho,quando ouvires o sol,dedo a dedo na vinha,esta guitarra. 2. No Douro só o nome é de ouro.As verdades são mais ou menos assim. 3. Curvam-se os homens sob os cestos de uvas:uma atitude de reverência. 4. Mudam-se os tempos, não muda a vindima:a mesma lua sobre o pensamento.…
-

Bastou um sopro
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”79441″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text]A Arsénio Mota Os dias contam-lhe o tempo ressequido: o espaço dos passos em Ceuta, a cinza do canto gótico, pomares de coisas muito gastas. Em pequenos círculos, os olhos divisam o rosto com dificuldade: uma estátua de sal, um ceptro de água nos confins da noite. Bastou um sopro e…
-

O motim
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Dos amotinados de 1757 nomeio a Estrelada. Se gostava da pingoleta coisa que não sei: vinho tem razões que a razão desconhece e as razões são aos milhões. Certo, certo é que o Marquês disse por cima do ombro: nas tabernas do Porto vinho só o da Companhia — ponto final. Vírgula, disse o povo,…
-

Se Jesus voltasse ao mundo
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”15609″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text] I Se Jesus voltasse ao mundo, tivesse de renascer, que lugar escolheria? Gostaria de saber. Numa vivenda bonita, daquelas da beira-mar? Num hotel de cinco estrelas, com janelas a brilhar? Coro Pensem lá, mas pensem bem, que nós pensamos também. Vamos pensar, mas a sério; decifrar este mistério. É mistério?…
-

Poema com história
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”78048″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text]Éramos seis na gare da estação. Lá no fundo, encostado à parede, só, magnífico, a perna esquerda em triângulo, um rapaz tocava concertina. Um homem de calças engomadas lia o jornal e falava. Falava de guerra. “Que se matem. Uns e outros são contra nós” — comentou um velhote com ar…
-

Rosa Alice Branco
[vc_row][vc_column][vc_column_text] Prémio Literário António Cabral 2023 [/vc_column_text][vc_single_image image=”77989″ img_size=”full” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text] Não sei porque é que os dias de canícula se chamam assim — Konrad Lorenz [/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]A escrita é um cão a ganir à porta que se abre para lhe dar mimos, o agasalha à lareira com um osso farto e tanto o escorraça, mesmo…
-

Figos pretos
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Subimos aos calços mais altos em busca dos figos pretos de que a mãe tanto falava. A cor exerce em nós alguma atracção que nos leva a desafiar estes íngremes taludes onde ruíram paredes e com elas as lajes salientes que serviam de degraus. Escorregamos na luz, de pedra, e as figueiras olham-nos como gatos…