Autor: António Cabral
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A vindima
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Na última vindima, ao cortar as uvas que deitava nos baldes, a gente falava alto e dizia graçolas como nos anos anteriores. Isso era o que se via. Mas de facto a gente cortava bocadinhos de si própria e deitava logo punhados de terra no vinho que acabava de descer à cova. Assusta ouvir o…
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Porretas & Bugalhos
Se a música tem a idade dos pássaros e dos ventos na janela, esta banda também e com ela a minha infância. Bandinha de Porretas & Bugalhos, gloriosa bandinha, que ainda hoje vejo passar nas ruas em declive, voo rasante comigo dentro. Perdi muita coisa desde então e a primeira foi a noção do tempo…
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Verde e ar puro
– Quando quiser, é só apitar. Apitei. O telefone não dá apenas chatices, sendo a chatice-mor as contas galopantes: dá também para combinar uns petiscos em tarde azul. A minha cara-metade a acompanhar-me no bolinhas, não vá um tipo tresmalhar-se nos regalos e na pingoleta. Já ao curvetear no Espinheiro, em terras marónicas de Candemil,…
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Isso de uma personalidade poética
Não tenho uma personalidade poética, não quero ter uma personalidade poética, isso de uma personalidade poética é um artifício, uma abstracção, um limite, um bluff. Respiro os quatro ventos que me entram na carne, pelas palavras, revolvem, estilhaçam, refazem as vísceras e o pensamento, as vísceras do pensamento. Estou atento a todas as formas do…
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Volto de ti
Volto de tilúcido e refeito. Eu não sabia que as tuas ervaseram feitas de música. No vento, nos passosquem acertou uma vez? Volto neste ramo Inédito (25 Jan. 1972)
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Homem-farrapo
Homem-farrapo, sejas tu quem fores,Até na sepultura, estou contigo.Abjuro o meu egoísmo e hoje, ofereço-teA inviolada ternura desta página,Magra flor, mas consciente, do meu cérebro.Homem-farrapo, olhado e abandonadoComo um farrapo sórdido. AparecesNa chuva ininterrupta das notícias,Criado e recriado, a toda a hora.Farrapo, sim: o que é um homemNa cela dum aljube ou dum asilo?Mas eu…
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Donde vens a estas horas de pálpebras
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Donde vens a estas horas de pálpebras no luar álgido como se não viesses O vento me traz e me concebeu no teu silêncio onde o rosmaninho cresce com o corpo Mãos alvas no interior da noite esquecidas de tudo o que era dantes só projectadas As minhas mãos vêm dos mares próximos do teu…
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Pequenos agricultores
[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”7105″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][vc_column_text] 1. Elegia Estarei prestes a ser um objecto posto de lado? Quando muito, limpo de ferrugem e arrumado num cesto de recordações. Talvez um ramo a estalar, não ao peso das aves, dos frutos e da manhã. Dos filhos que emigraram e escrevem de longe, de aventura em aventura. Também…
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Já os galos pretos cantam, já os anjos se alevantam
[vc_row][vc_column][vc_column_text]Os anjos pousam no recife. O recife pousa onde ninguém o vê. O que se vê são dois pontos que ao tocarem-se produzem um excesso brevíssimo de luz, desde a curva inicial, e de que tu neste exacto momento és um murmúrio quase inaudível. Desejarias Sê-lo em cada espaço-instante desta imensa solidão? O ferro percute…
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Três jogos populares infantis
[vc_row][vc_column][vc_column_text] A actividade lúdica tem uma importância fundamental na vida da criança, pois lhe acompanha, condiciona e promove o desenvolvimento. Brincar é não só uma necessidade mas também um direito da infância. – António Cabral, Jogos Populares Infantis [/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text] Macaquinho do Chinês Junto de uma parede está uma criança (macaquinho do chinês) de costas voltadas…