[vc_row][vc_column][vc_single_image image=”19518″ img_size=”large” add_caption=”yes” alignment=”center”][/vc_column][/vc_row][vc_row full_width=”stretch_row” disable_element=”yes” css=”.vc_custom_1708693844209{background-color: #f9f9f9 !important;}”][vc_column][vc_column_text]Velhas crenças, guitarra do silêncio
acordando no fundo da memória,
entre lumes e brumas, todo o intenso
perfume duma triste linda história.

Gruta ou palácio, aí se desencanta
bulir de sombras, retinir de gládios.
Sempre a mão do destino se levanta;
há sempre a rosa fúlgida duns lábios.

Fadas que vertem oiro pelos dedos,
corcéis como relâmpagos, meninas
torturadas por bruxas, monstros, medos,
moiras que habitam ermos ou ruínas.

São crenças que um positivismo estrénuo
vai destruindo com brutal frieza.
Talvez se faça mal: crer tão ingénuo
é uma suave angústia de beleza.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]I

Era uma moira encantada
que se chamava Maria.
A sua gruta fechava-se,
apenas o sol nascia.

Nos seus olhos duas aves
cantavam sem alegria;
cantavam tristes, cantavam
toda a noite e todo o dia.

Os seus lábios tinham mel,
perfumes de malvasia,
e nos seus longos cabelos
uma chama negra ardia.

— Quem pôs a linda agarena
nessa colina sombria?
Quem lhe derramou nos olhos
taças de melancolia?

Perguntou um cavaleiro,
mas ninguém lhe respondia.
A sua espada brilhava
como o sol ao meio-dia.

II

— Onde vais, ó cavaleiro,
nesta noite de luar?
— Procuro a moira encantada
com quem me quero casar.

— Volta atrás, ó cavaleiro,
que a não podes encontrar.
Ela esconde-se na gruta,
quando sente alguém passar.

Cem jovens a procuraram;
foi vão o seu procurar.
Volta atrás, ó cavaleiro,
não passes deste lugar.

— Velho agoirento, não fales
a quem decidiu amar.
Terei a moira nos braços,
antes da noite acabar.

As estrelas cintilavam;
estava um mocho a piar.
De repente, na colina
começa alguém a cantar.

Oh que cântico tão doce
que deslizava no ar
como a asa duma pomba,
como uma onda no mar.

Partiu logo o cavaleiro.
O velho pôs-se a cismar:
o amor é como o vento:
ninguém o pode travar.

III

Já raiava a madrugada;
a estrela de alva luzia.
No trigal, junto da vinha,
cantava uma cotovia.

Era dia de S. João.
Gotas de orvalho, garridas,
acordavam nas estevas
e nas giestas floridas.

Cauteloso, o cavaleiro
avançava, sem se ouvir.
Vede-o chegar à colina
que começa de subir.

A linda moira lá está
— uma flor na penedia.
Está sentada e penteia-se
num reguinho de água fria.

O seu espelho é de prata,
o seu pente, de marfim.
Ao peito tem um raminho,
o raminho é de alecrim.

Oh que formosura aquela!
Que olhar tão doce e tão triste!
Formosura tão formosa
nunca existiu nem existe.

Está perto o cavaleiro;
o cavalo mal respira.
Olhando os prados e o céu,
a linda moira suspira.

Está perto o cavaleiro.
Está mais perto, pertinho.
Vai por detrás do fraguedo,
devagar, devagarinho.

A moira não dá por nada.
Levanta-se, de mansinho,
suspira e vai colher flores
num tufo de rosmaninho,

quando o cavalo, num salto,
num galope repentino,
surge a seu lado, feroz,
certeiro como o destino.

Abaixa-se o cavaleiro
como um raio dos espaços;
arrebata a linda moira
e leva-a presa em seus braços.

IV

Onde foi o cavaleiro?
Ninguém o pôde saber.
E a moira? Voltou, um dia,
mas voltou para morrer.

O seu rosto é como um lírio
que começa a emurchecer;
o seu olhar, como a tarde
quando está pra anoitecer.

Junto da gruta se senta;
dali não se quer erguer.
Passa as horas a chorar.
Toda a gente a pode ver.

Passa as horas a chorar,
passa as horas a gemer.
Já só tem a pele e os ossos.
Quem no havia de dizer!

Um dia, de manhãzinha,
quando o sol ia nascer,
na colina os passarinhos
começaram a tremer.

Porque tremeis, passarinhos?
Quem é que vos faz sofrer?
Ai Maria, a linda moira,
acabava de morrer.

Veio um bando de andorinhas,
veio para a recolher.
Alguém que foi à colina
não podia compreender.

Desde então, quem ali passa
começa de entristecer.
Lá está a gruta sombria
e um fio de água a correr.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row full_width=”stretch_row” disable_element=”yes” css=”.vc_custom_1708693915431{background-color: #f9f9f9 !important;}”][vc_column][vc_column_text]Velha crença!, leitores. Não suponho
ter feito muito mal em a contar:
uma história de moiras é um sonho
que, ao fim e ao cabo, sabe bem sonhar.

E o sonho, neste século terrível
em que o medo da guerra nos domina,
é, no meu entender, bem mais plausível
que qualquer dose de uísque ou cocaína.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column]

[vc_message message_box_style=”outline” message_box_color=”grey” icon_type=”typicons” icon_typicons=”typcn typcn-info-large”]Lenda contada em Castedo do Douro.[/vc_message][/vc_column][/vc_row][vc_row disable_element=”yes”][vc_column][vc_message message_box_style=”outline” message_box_color=”grey” icon_type=”typicons” icon_typicons=”typcn typcn-info-large”]A versão publicada em Antologia dos poemas durienses apresenta algumas diferenças em relação à versão aqui publicada de Poemas durienses: 1. intitula-se “Xácara”; 2. exclui as primeiras quatro e as últimas duas estrofes; 3. inclui a seguinte nota: “Lenda contada em Castedo do Douro”.[/vc_message][/vc_column][/vc_row]