Já os galos pretos cantam, já os anjos se alevantam

Os anjos pousam no recife.
O recife pousa onde ninguém o vê.
O que se vê são dois pontos que ao tocarem-se
produzem um excesso brevíssimo de luz,
desde a curva inicial,
e de que tu neste exacto momento
és um murmúrio quase inaudível.
Desejarias
Sê-lo em cada espaço-instante desta imensa
solidão?
O ferro percute o bronze do sino
e o que fica é a bela e ampla sonoridade
que infelizmente não passa da variação
momentânea da pressão do ar nos tímpanos,
seja o fragor das ondas ou o riso das euménides,
o ruiduzinho dum isqueiro ou uma sinfonia
de Beethoven.
Tudo nasce de um contacto
gerador afinal de margens provisórias.
Os anjos vêem-se do mar, como do rio as margens
dilatadas pela barragem, suas tínulas vozes
ou clarins, frutos pendurados
da abundante nespereira,
a água a irisar a crista dos rochedos.
Todo o anjo é terrível, disse Rilke, porque,
digo eu, é o excesso brevíssimo,
a espuma irisada de cada margem
onde a onda, a Onda, se vai esgotando.

*

Galos sagrados, só os pretos.
Os anjos levantam-se depois de acordados
por eles,
restos de noite
ao embaterem fragorosamente contra a luz.

(Palavra que se cante é sarça ardente).
Mas os anjos
que são o próprio acordar,
velozes e fúlgidos, melodia,
quem os conseguirá deter,
gumes atentos por onde quer que se olhem?

(Eis o mistério das sete estrelas – disse João).

*

Já os galos pretos cantam, já os anjos
se levantam, prestes a encontrarem os rastos
do dia anterior, as mesmas formigas,
como se não houvesse outro caminho?

O frondoso amieiro oculta o riacho, mas não
a tua mente que o reinventa, desde a infância,
tão nitidamente como Alcor,
a estrela semelhante a uma borboleta.

O galo matinal, pronto no dizer o que lhe vai
na alma, não é o mesmo em cada manhã,
tal como os anjos, sucessivas metamorfoses

do espírito a que tereis ocasião de assistir,
se imitares da formiga a arte de transportar,
suavemente, o último sorriso de Gioconda.

*

Os poetas gostam muito de falar de anjos,
falando de si próprios. Os anjos são uma espécie
de vampiros que entram nos olhos e levam, roubam
o que conseguem de lume. Depois atravessam

as paredes da cólera, voam sobre o telhado
e pousam em qualquer ramo, acendendo-o.
É estranho, sem dúvida, voltar o poeta de uma vinha,
pálido e triste, acompanhar a cabra

selvagem nos penhascos, descer ao fundo de si
e colher o que resta de uma tarde,
como se fossem morangos ríspidos.
Os anjos gostam de se ver
ao espelho. A solidão, o gesto inóspito
e um pouco de música foram os teus anjos, ó Antero.

Os versos do título fazem parte de uma oração tradicional portuguesa, o “Padrenosso pequenino”.

António Cabral para Eito Fora por Pedro Colaço Rosário (2001)

António Cabral [1931-2007] foi um poeta, ficcionista, cronista, ensaísta, dramaturgo, etnógrafo e divulgador da cultura popular portuguesa.

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