Bastou um sopro

Portugal (1968-69), por Neal Slavin
Portugal (1968-69), por Neal Slavin

A Arsénio Mota

Os dias contam-lhe o tempo ressequido:
o espaço dos passos em Ceuta,
a cinza do canto gótico, pomares
de coisas muito gastas.
Em pequenos círculos, os olhos
divisam o rosto com dificuldade:
uma estátua de sal, um ceptro
de água nos confins da noite.

Bastou um sopro
e as tapeçarias começaram a evolar-se
nas muralhas do sono.
Bastou um sopro
e as palavras já não andam de canto
em canto,
como embalagens clandestinas.

Meu velho cárcere com gabinetes especiais
para os que vendiam a consciência
por trinta dinheiros.
Os dias adelgaçavam-se nas pequenas fendas,
pedra do pensamento voando em estilhas,
na erva em lâmina das vinhas,
das ruas por encher, dos ossos
nos holocaustos inúteis.

Moeda corrente era, como todos sabíamos,
a traição bebida desprevenidamente
à mesa do café, com os idólatras da cinza,
cada vez mais emporcalhados
pelos dejetos que despediam no simples olhar.
Eles eram os pilares duma tradição ramelosa
do chamado Portugal de antanho, museu
de cera que derreteu a um breve lume.

Essa coisa viscosa ainda se vê por aí.
Mas
os dias contam-lhe o tempo ressequido.

António Cabral para Eito Fora por Pedro Colaço Rosário (2001)

António Cabral [1931-2007] foi um poeta, ficcionista, cronista, ensaísta, dramaturgo, etnógrafo e divulgador da cultura popular portuguesa.

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