Dos amotinados de 1757
nomeio a Estrelada.
Se gostava da pingoleta
coisa que não sei:
vinho tem razões
que a razão desconhece
e as razões são aos milhões.
Certo, certo é que o Marquês
disse por cima do ombro:
nas tabernas do Porto
vinho só o da Companhia — ponto
final. Vírgula, disse o povo,
fazendo contas de cabeça.
E nessa quarta-feira
as ruas acenderam-se.
E o sol… moita carrasco.
Abaixo a Companhia!
E foi o pandemónio.
Veio a tropa, veio a lei,
homens de má catadura.
Forca, açoites, calabouço,
confiscação e galés.
Foi quase meio milhar
de tripeiros que julgavam
que o povo é quem mais ordena.
O sol já tinha remorsos:
quem é aquela criança
que assiste à morte do pai?
Condenada, meu senhor.
Da forca pendem treze homens,
quatro mulheres também.
A Estrelada estava grávida
— salvaram-se as aparências.
Ah vocês cuidam que sim?
Cuidam que o rei é um boneco
e que, ao fim de quatro meses,
lá por nascer um fedelho,
a lei vai servir de fralda?
Sobe à forca, ó Estrelada,
e que o Marquês se console,
enquanto o rei come o sol
num cubo de marmelada.
Sentença do Motim Popular do Porto ou Revolta dos Taberneiros

António Cabral [1931-2007] foi um poeta, ficcionista, cronista, ensaísta, dramaturgo, etnógrafo e divulgador da cultura popular portuguesa.